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Quem tem medo dos gatos?


É provável que você já tenha visto a capa desse romance gráfico nas prateleiras de alguma livraria ou num site de compra de livros. Caso não, eu vos apresento Maus, uma graphic novel escrita por Art Spiegelman e publicado em duas partes, a primeira em 1986 e a segunda em 1991. No ano seguinte, Maus ganhou o prestigioso Prêmio Pulitzer de literatura. Maus – que significa rato em alemão – é a história de Vladek Spiegelman, judeu-polonês que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, narrada por ele próprio ao filho Art. 

Na história, Vladek, personagem principal da trama, conhece Anja, com quem se casa e, dessa forma, ganha uma fábrica de tecidos de seu sogro, passando a viver dos lucros obtidos. Ao longo dos anos, a contar de meados de 1930 até as décadas do pós-guerra, Vladek narra, da perspectiva do traço de seu filho, os horrores que se espalharam pela Europa com a ascensão de Hitler. Nos quadrinhos, os personagens principais são antropomorfizados: os judeus caracterizados como ratos; os nazistas caracterizados como gatos, os poloneses não-judeus caracterizados como porcos e os americanos são cachorros.

Esse recurso, aliado à ausência de cor dos quadrinhos, reflete o espírito do livro: trata-se de um relato incisivo e perturbador, que evidencia a brutalidade da catástrofe do Holocausto. Ao retratar os personagens de forma antropomórfica, isto é: judeus como ratos, nazistas como gatos e poloneses não-judeus como porcos, Spiegelman segue a natureza dos instintos animais. Naturalmente, gatos perseguem ratos, sem dó nem piedade, para manterem sua sobrevivência. Art utiliza essa concepção ao representar os diferentes grupos étnicos que participam do enredo, em que os nazistas se consideram uma “raça” superior (gatos) e têm o direito natural de extinguir os judeus (ratos). 

Esse antropomorfismo pode ser visto como reação às metáforas de animais daninhos (em alemão, Ungeziefer) usadas pelos nazistas para se referirem aos judeus, principalmente em seus filmes de propaganda antissemita. 



Sobre a ausência de cores nos desenhos, a semiótica explica que, nas civilizações ocidentais, o preto tem significado de aflição, morte, tristeza e solidão. A cor preta é associada a objetos pesados, sons desagradáveis, angústia, opressão, medo, pânico, inibição e ódio. É depressiva, solene, profunda e dominante. Tudo isso confere à Maus um tom sombrio, expressando o contexto negativo e dramático vivenciado pela família durante a ditadura nazista. Essa não utilização de cores nos desenhos imprime, pois, um sentido intrínseco à história de Vladek, demonstrando o quão terrível foi o período do nazismo não só em sua trajetória, mas nas vidas de um continente inteiro.

Spiegelman, porém, evita o sentimentalismo e interrompe algumas vezes a narrativa para dar espaço a dúvidas e inquietações. É implacável com o protagonista, seu próprio pai, retratado como valoroso e destemido, mas também como sovina, racista e mesquinho. Trata-se de uma obra de que rompe com os paradigmas dos quadrinhos, da literatura e da história. Maus é um texto humano, acima de qualquer caracterização. Um texto tão humano que deixa no leitor a sensação do soco no estômago. De vários pontos de vista, uma obra sem equivalente no universo dos quadrinhos e um relato histórico de valor inestimável.

Onde comprar Maus:

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