quarta-feira, 8 de março de 2017

EDITORIAL | As mulheres e os quadrinhos


Hoje em dia é difícil negar que uma das partes quintessenciais da indústria dos quadrinhos - nacional e internacional - é o trabalho empenhado pelas mulheres nas revistas e gibis. Autoras e desenhistas de grandes títulos; o empenho delas trouxe drásticas mudanças e até mesmo revoluções na forma que se faz e se consome quadrinhos. Hoje, oito de Março, é um dia marcante, que nos faz lembrar da importância da mulher. Importância esta muito ignorada, jogada pra baixo e diminuída. 


O objetivo deste texto é tratar o dia da mulher e tentar traçar e celebrar o impacto positivo das mulheres no cenário nacional e internacional, tentando fazer, de início, uma análise histórica do papel da mulher na indústria dos quadrinhos. Vamos?

A origem das quadrinistas
Por mais que o quadrinho seja um fenômeno praticamente mundial; com cada país tendo um estilo de arte e narrativa diferente, o trabalho das mulheres nos gibis não começou junto ao dos homens. Por muito tempo, era tido como um trabalho masculino, e as mulheres eram marginalizadas do mesmo. Mas engana-se quem acha que é um fenômeno muito recente. Claro que traçar a primeira obra de uma mulher na área é muito complicado; mas talvez o mais notável seja na revista Brinkley Girl; de Nell Brinkley, em 1897.

Ainda que fosse minoria; Nell nos Estados Unidos fez parte da origem dos quadrinhos americanos - chamada de "Era de Platina" - com uma personagem que seguia, de certa forma, o estereótipo feminino da época, mas também trazia conceitos progressistas; tal como mostrar a mulher como independente, segura de si e centrada; fazendo atividades não tidas como "de mulheres" para a época. Nell inovou na forma de se contar histórias de personagens femininas; e trouxe um movimento que, em escala global, começaria a tomar força no século 20. 

Outra quadrinista importante dessa era dos quadrinhos foi Grace Drayton. Por mais que seu trabalho hoje em dia seja difícil de encontrar; ela foi tida como uma das cartunistas mais bem sucedidas de sua época, sendo uma ilustradora para livros infantis, de moda e quadrinhos em geral. Grace foi, também, a autora das tiras Dolly Dimples; do começo do século 20, que trazia mais humor ao seu trabalho. 

O impacto cultural das mulheres nos quadrinhos iniciou muito antes do próprio quadrinho ser popularizado, por assim dizer. Claro - na época, a indústria era majoritariamente masculina, e o trabalho delas era deixado de lado ou até apagado dos registros. Talvez por isso poucos nomes sobrevivam ao tempo, por uma opressora falta de atenção em relação às mulheres. 

As mulheres, os quadrinhos e o início do século 20
Não demorou para a onda feminina começar a ganhar espaço, ainda que mínimo, na indústria dos quadrinhos. A Era de Ouro e a Era de Prata da indústria  marcaram duas gerações de um crescimento considerável das mulheres, principalmente no Canadá e nos Estados Unidos: é o momento de popularização e explosão dos super heróis! Quadrinhos deixam de ser resumidos à tiras em jornais e começam a tomar a importância para ter revistas próprias. 

Aqui é impossível não perceber o trabalho de três mulheres estadunidenses: Alice Marble, Elizabeth Holloway Marston (que viveu até os 100 anos!) e Olive Byrne. Elas estão intimamente relacionadas a criação e desenvolvimento do progressista e, de vez em quando polêmico, projeto da Mulher Maravilha, da DC Comics. 

Falar de mulher nos quadrinhos no início do século 20 e da Mulher Maravilha é praticamente a mesma coisa, e não quero ficar falando só do óbvio e que todo mundo conhece; mas sua importância aqui é vital para a explosão e proliferação do trabalho das minas alguns anos depois.

Psicóloga e advogada; foi detalhada a importância dela somente em 1992, quando ela tinha 99 anos de idade, em entrevista a revista The New York Times, Elizabeth é tida como, de certa forma, a mãe da personagem, mostrando como a situação bélica do mundo e a crescente importância da mulher. O polígrafo foi inventado por uma mulher - logo, a Diana Prince precisava ter um laço da verdade, é uma conquista. 

Olive Byrne, por sua vez, também serviu de inspiração pra personagem e, inclusive, era conhecida tanto de Elizabeth quanto do marido da mesma, e os três são tidos como os criadores definitivos de Diana. Durante todo o período da Era de Ouro e Prata da Mulher Maravilha, muitos momentos de polêmicas e de acertos ocorreram, com a personagem passando por muitos roteiristas e desenhistas diferentes. Mesmo com um pouco de turbulência; hoje em dia, a personagem é tida como um marco nos quadrinhos, é extremamente importante e detentora de imensos clássicos; como O Paraíso Perdido ou Olhos de Gorgon. Em 2 de junho de 2017; o filme da Mulher Maravilha vai marcar o primeiro do gênero a ser protagonizado por uma mulher; com Gal Gadot como Diana Prince em um filme dirigido por Patty Jenkins.

O crescimento e a popularização das mulheres nos quadrinhos
Por notar um crescimento exponencial da participação das mulheres nos quadrinhos; a metade pra frente do século 20 e o nosso atual momento é marcado por uma impressionante participação global das mulheres na indústria. Seja na criação de fantásticas personagem femininas nas editoras mais mainstream; como a Batgirl, Canário Negro, Supergirl, etc., como com publicações independentes do mundo todo.

Vamos começar à falar deste momento em um escopo fora dos Estados Unidos. Aqui na América Latina, o movimento da mulher nos quadrinhos é gigantesco. Como um espaço de resistência e contracultura, representando uma área independente fortíssima principalmente com autoras contemporâneas, como é o exemplo da nossa colaboradora (e incrivelmente mais competente que qualquer cara do Crise), a Clarice Dellape; o movimento do quadrinho aqui em terras latinas é impressionante.

Maitena Brundarena é uma argentina conhecida por seu trabalho em Mujeres Alteradas; publicado internacionalmente. São tiras fantásticas que celebram e comentam o dia a dia e outras coisas a mais, em um trabalho excepcional que conquistou o mundo todo. Com mais de 150 mil cópias vendidas, Maitena representa uma das provas de que o trabalho da mulher não tem como ser ignorado.

Falando agora em terras tupiniquins; são três os nomes mais chamativos na área, pelo menos tidos como mais famosos. Adriana Melo passa, muitas vezes, despercebida, mas seu trabalho em Aves de Rapina e Ms. Marvel não dá para ignorar - sem dizer na sua contribuição fundamental para a série Star Wars: Empire e seus quadrinhos de Doctor Who. Com um traço belíssimo e uma habilidade impressionante, Adriana impressiona com sua capacidade de fazer coisas tão diferentes e, ainda assim, incríveis.

Não podemos esquecer, também, da Laerte. Mulher trans colaboradora de algumas das revistas de quadrinho mais populares do Brasil, como Balão, O Pasquim e Chiclete com Banana; ela consegue acumular o espírito crítico dos quadrinhos. Hoje em dia, a Laerte é muito popular principalmente por suas tiras que dominam o Facebook, entretanto, o legado da artista é amplo, e vital foi seu trabalho para o atual momento de sucesso das mulheres nos quadrinhos independentes no Brasil, principalmente para as mulheres trans.

Para finalizar o papo das fantásticas quadrinistas brasileiras; também precisamos falar da mangaká e ilustradora Erica Awano. Formada pela universidade de São Paulo em literatura; Erica começou sua carreira em 1996 no manga de Mega Man e Street Fighter Zero 3. Famosa por seu traço; as contribuições dela para as obras da Capcom foram cruciais para a popularização das franquias no oriente. Ainda; Erica ilustrou muitos livros de RPG, como 3D&T e Tormenta e, claro, uma das séries de quadrinhos mais conhecidas pelos antigos nerds: Holy Avenger. Os trabalhos dela marcaram uma toda geração de ilustradores no Brasil.

Talvez uma das mulheres mais famosas nos quadrinhos hoje em dia seja Marjani Satrapi - a primeira mulher à ganhar o Eisner Award por seu trabalho em Persépolis. Pode-se dizer que essa graphic novel revolucionou a indústria dos quadrinhos. Sendo autobiográfico, artístico, emocionante e histórico; a obra de Marjani conta a infância da autora no Iran. É uma obra viva, que narra as dificuldades das mulheres e as virtudes delas mesmo em situações que são naturalmente contrárias a sua realidade.

Marjani criou uma legião de seguidoras e influenciou muitas outras artistas do mundo inteiro à produzir conteúdo artístico. Direto do Abidjan, na Costa do Marfim, Marguerite Abouet é uma das mulheres que utilizam de Persépolis como a maior influencia de sua carreira. Autora da novela gráfica Aya que, além dos prêmios e mais de 200 mil cópias vendidas, virou uma animação; marca basicamente uma primavera na produção mundial de quadrinhos por mulheres.

Inclusive, no oriente, o trabalho das mulheres nos quadrinhos são muitos. As obras, inclusive, incontáveis. São diversas mangakas que mudaram a forma de se contar histórias - exemplo maior é das mulheres que formaram a CLAMP - Ageha Ohkawa, Mokona, Tsubaki Nekoi e Satsuki Igarashi; provavelmente um dos estúdios de animação, criação e desenho mais famoso do Japão. Autoras de clássicos como Sakura Cardcaptors, Chobits, Guerreiras Mágicas de Rayerth, X-1999, Angelic Layer e muitos, muitos outros. É normalmente relacionado o trabalho dessas mulheres com a proliferação da cultura nerd e da cultura japonesa no Brasil. As animações do grupo fizeram parte da infância de muitos.

Zhang Xiaobai também é outra quadrinista, tida como mangaká, que marcou a indústria com uma lista de prêmios que recebeu. Chinesa e autora da obra Si Loin et si Proche (tão distante entretanto tão perto); recebeu o prêmio de melhor manga no 4º International Manga Award, de 2011. É um slice of life, gênero famoso no oriente que narra atividades do dia a dia com drama ou comédia. É um exemplo para as desenhistas da China e tida como um sucesso por toda a Ásia.

Outra cartunista famosa é Svetlana Chmakova. Russa e já indicada duas vezes ao Eisner; é autora de uma das webcomics mais famosas do mundo, Girlmatic. Outras obras famosas da autora são Dramacon e Awkward. Ambas as séries foram indicadas ao Eisner, e mostram que a era das mulheres nos quadrinhos está crescendo e não vai parar. É um fenômeno mundial.

É vital, também, falar do trabalho da mulher que está modificando completamente o que é fazer animação para a TV. Rebecca Sugar, criadora de Steven Universo, mostra, em sua obra, lições de moral, vida, amor e luta. É uma obra completa, com uma equipe diversa de animadores e tudo mais. Rebecca provou que as animações para a TV podem ter muito conteúdo e, ainda assim, ser importante para a formação e entretenimento de pessoas de todas as idades.

Pra terminar; quero falar também de Ulli Lust. Autora austríaca; em sua obra baseada na realidade Today is the Last Day of the Rest of Your Life; ela é detentora da graphic novel que mais gostei de tudo o que falei aqui. Com uma sutileza e sobriedade impactantes; a obra foi indicada à diversos prêmios e vencedora de muitos outros, a revista é um retrato moderno da vida urbana e suburbana, impressionando o leitor com uma arte forte e densa.

É impossível não notar a importância da mulher nas revistas em quadrinhos hoje em dia. Com obras fantásticas e revolucionárias, o espaço das mulheres na indústria de quadrinhos é um divisor de águas e só nos trás qualidade e conteúdo. O foco deste texto foi celebrar e agradecer as mulheres que, hoje, escrevem ao redor do mundo quadrinhos com cada vez mais qualidade.

Claro que existem muitas outras quadrinistas de peso na indústria hoje em dia: Babs Tarr, Gail Simone, Janette Kahn, Fiona Staples, Samm Barnes e a lista segue. O espaço da mulher dentro dos quadrinhos não para de crescer; e nós só temos a ganhar com isso tudo.
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Editorial feito por Alex Jacket; autor da coluna O Limite.

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