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O Limite: revisitando "Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge"

Estamos, hoje em dia, em um mundo aonde os filmes de super heróis entopem as salas de cinema e conseguem bilhões em bilheterias por solidificar uma fórmula que rende dinheiro. Enquanto a Marvel faz sucesso em cima daquilo apresentado anos atrás com Iron Man; a DC segue um tom próximo daquilo que foi a trilogia do Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. Filmes estes que são relembrados com muito amor, que acaba fazendo os fãs esquecerem do fiasco que foi o último capítulo da série.


Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises; 2012) termina uma história que até então era feita com extrema competência. Enquanto Batman Begins e The Dark Knight conseguiam adaptar a ideia do Batman para o século 21; o terceiro filme acabou se distanciando da necessidade de criar uma base. Isto é: o filme, em regra, teve mais liberdade criativa em seu roteiro e direção.

O roteiro é resultado do trabalho dos irmãos Christopher e Jonathan Nolan; com uma história de David S. Goyer. Depois de um Batman e de uma Gotham City já definidas, o trabalho de desenvolvimento dos personagens ia caminhando para uma conclusão de trama, com uma ameaça "maior" da que a qual o Coringa ou o Espantalho ofereciam. Algo que fosse atingir a todos.

Enquanto, no primeiro filme, vemos uma história de origem e, no segundo, um enfrentamento de grandes dificuldades; O Cavaleiro das Trevas Ressurge vem para nos prometer um perigo que pode colocar em cheque toda a sociedade. Algo que comece em Gotham City e termine no resto do mundo. O principal problema do filme, que o tira de consonância com o que o Batman significa e com o que os outros dois filmes estavam colocando, é a linha política e filosófica apresentada em Ressurge.

São muitos os momentos em que deixam em cheque o que o diretor e os roteiristas querem passar: uma imagem e sensação de que o povo e a classe trabalhadora não conseguem viver em paz e, muito menos, julgar e guiar a sociedade de forma horizontalizada. Longe de mim defender as intenções de Bane no filme - ele esta mais próximo de um terrorista armado do que de um socialista revolucionário. E é esta proximidade que me assusta; pois em muitos são os momentos que o filme entrega o poder ao povo e ao trabalhador, para mostrar que "não daria certo".

Exemplo são as cortes populares. Por si só, a existência dessa espécie de corte deveria ser padrão e incentivada pela sociedade - o povo julgando aquilo conforme deve ser julgado. Entretanto, o filme mostra que, quando pessoas fora da casta judicial se unem para julgar, o caos é eminente e impossível de impedir, com maluquice e falta de sentido.

Ainda, muitos são os momentos em que se mostra aquilo que o filme realmente quer passar para os espectadores. Diferente de tudo apresentado nos outros filmes e nos quadrinhos, o Batman se une à polícia fascista e militarizada de Gotham para tentar vencer, isto é, para fazer Gotham como era antes. Normalmente, nas histórias do homem morcego, a GCPD representa um bando de malucos armados tendo somente o Gordon como alguém mais calmo e centrado, e é com ele que as relações com o Batman floreiam. Neste filme, não: a polícia está junto de Batman, pareça isso estranho e controverso ou não (afinal, ele é um fora da lei).

O que o filme passa para quem assiste é que, por mais ruim que seja o capitalismo, ele ainda é melhor que qualquer outro sistema. E essa é uma mensagem mentirosa e maléfica. Ignora a Comuna de Paris. Esquece o período pré Stalin da União Soviética. O filme traz para o contexto fantástico uma visão reacionária e sem sentido. Mesmo que isso contrarie o que, a priori, significa ser o Batman.

A obra consegue ir além, mostrando que a vigilância imposta pelo capitalismo é "benéfica" e que o cerceamento das liberdades individuais em prol dos ricos é algo aceitável. A fábula bidimensional e sem profundidade em "Ressurge" faz os ricos no papel dos "coitados" e os pobres no papel dos "revolucionários vilões malucos que não sabem julgar ou viver em sociedade".

Também existem ataques a movimentos progressistas excepcionalmente norte americanos, como visto no "ocupar Wall Street", ato feito pelos trabalhadores e entusiastas para levantar o fato de que o 1% ainda detém mais do que o 99%. Essa situação não mudou de 2012 pra cá: de acordo com o levantamento da Oxfam, hoje em dia, os 8 mais ricos tem mais dinheiro, juntos, do que 3,6 bilhões dos mais pobres.

O que o filme "cavaleiro das trevas ressurge" quer dizer é que isso é aceitável - essa desigualdade de renda. E não, não é.  Enquanto, nos quadrinhos, o Batman tem, desde a era de Grant Morrison, sido cada vez mais progressista e critico; nos filmes, a imagem do homem morcego foi enviesada, tentando criar algo que não existe. A dúvida que fica é se o Batman de Ben Affleck vai ser mais parecido com os quadrinhos ou com os filmes. Espero que seja a primeira opção.
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Escrito por Alex Jacket, autor da coluna "O Limite".

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