sábado, 12 de novembro de 2016

Crepax, bife à milanesa e Valentina.


Começarei meu texto de hoje com um vibrante e alegre: Ciao! Diretamente vindo da Itália (ou da Mooca, que é a nossa versão brasileira) e, neste caso, especificamente, com sotaque de Milão. Adotei a expressão porque hoje falarei um pouco sobre uma das coisas mais interessantes que nasceram nesta cidade, e não, não estou falando sobre o bife à milanesa. Falarei sobre criador e criatura, ilustrador e personagem, Guido Crepax e Valentina!


Nascido em 1933, em Milão, Guido Crepax lançou-se no mundo artístico enquanto ainda cursava arquitetura na universidade de Milão. Durante seu período acadêmico, o jovem artista produziu uma série de anúncios publicitários e capas, tanto de revista, como de discos e livros. Após se formar, logo em 1958, o italianinho de nome engraçado resolveu desistir da arquitetura para se dedicar integralmente a ilustração, começando seu trabalho na, recém lançada, revista Tempo Medico, onde ficaria até a metade da década de 80.

Campanha para a Shell que rendeu a Palma D'Oro a Crepax.
Guido fez anúncio para marcas como Campari, Esso, Dunlop, Fuji, Honda e Shell pela qual, muitos afirmam, ganhou uma “Palma d'Oro” em 1957. Apesar deste começo agitado, foi apenas em 1965, entre um trabalho e outro, que Guido iniciou, de fato, sua carreira nos quadrinhos. Foi na revista Linus que sua primeira história, Neutron, foi lançada. Neste trabalho, o autor italiano nos apresenta Neutron, alter ego do crítico de arte Philip Rembrandt, um detetive amador que resolve mistérios bizarros. A publicação merece destaque porque, nela, nasce a maior personagem do autor: Valentina. Com o passar do tempo, a garota, que antes aparecia apenas como a noiva do estranho detetive, começa a ganhar destaque, até que, finalmente, acaba ganhando seu próprio quadrinho.

Essa é Valentina.
Além desse trabalho, e até o final de sua carreira, Guido ainda fez mais algumas ilustrações para jornais, revistas e capas de álbuns, atuou como designer de moda e de móveis, e, não fosse o bastante, também assinou uma série de litografias. Apesar de termos outras coisas interessantes no meio dessas tantas obras, vamos parar de falar do autor para nos focar, novamente, na Valentina.

Admito que, atualmente, a personagem não é lá muito famosa e é até mesmo raro encontrar quem conheça, ou até mesmo tenha ouvido falar do quadrinho. Mesmo assim, a importância dela é inegável. Por meio dos traços, da composição e até mesmo das temáticas de suas histórias, que tinham um misto de espionagem, onirismo, fantasia e (claro) erotismo, Guido conseguiu retratar todo o visual, as ideias, o cotidiano e as dúvidas da Europa da década de 60. Em certos casos, por exemplo, o quadrinho trazia reflexões sobre assuntos como a bissexualidade e o êxtase auto-erótico. Além disso, também foi forte influenciadora do erotismo Europeu da segunda metade do Século XX, servindo de inspiração para outros “figurões”, como Milo Manara e Paolo Eleuteri Serpieri.

Se quiser saber mais, existe um filme de 1973 sobre a personagem. Chama-se Baba Yaga. Você também pode dar uma olhada nessa biografia, lançada pela L&PM, ou, é claro, procurar algum quadrinho. Quanto ao Guido, caso lhe interesse: ele morreu, em 2003, aos 70 anos, após uma batalha contra a esclerose múltipla.

Texto escrito por: Guilherme Kadow

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