sábado, 29 de outubro de 2016

Guerras Secretas e o problema com mega sagas



Para aqueles que acompanharam as HQs do universo Marvel dos últimos dois anos ou o trabalho de Jonathan Hickman, com certeza as Guerras Secretas foi uma das histórias mais aguardadas e também para a qual mais foram geradas expectativas. Afinal, a preparação para ela foi incrível e durou o que? cerca de 70 edições contando junto Vingadores e Novos Vingadores (fora as sementinhas plantadas em Quarteto Fantástico), além de vários teasers dizendo que grandes histórias do passado estavam de volta. Então, o que deu errado? (se é que me permitem dizer que deu algo errado...)



Quando finalmente a revista dos Vingadores pela Panini chegou ao seu último número, eu pensei "é chegada a hora, eu finalmente estou pronto, eu vou ler Guerras Secretas". O hype era grande demais e cheguei a conclusão de que não poderia esperar mês a mês para ler apenas 25 páginas dessa saga, além disso, uma saga como essa eu iria querer em encadernado. Comprei no bookdepository.com e quando o tempo de entrega superou o que indicava no site, comecei a brigar na assistência ao consumidor do site. Tudo para ler Secret Wars. Eu parei tudo na minha vida (toh exagerando) e devorei o quadrinho (em um tempo de uma semana, na verdade).

Ok, reconheço a minha culpa no sentido expectativa.

Mas, mesmo passando quase dois meses desde que terminei de ler a saga e já estar apto a olhar para ela com um ar mais racional e tranquilo, eu ainda me sinto desapontado. E eu sei exatamente por que.

Para começar, a primeira vez que parei para prestar atenção no trabalho de Jonathan Hickman foi em Vingadores e Novos Vingadores e com o tempo percebi que ele tinha proficiência em seu ofício de lapidar boas histórias. Ele planejava e executava no tempo certo e com muita calma. Ao longo de dois anos, ele foi posicionando cuidadosamente os personagens em um tabuleiro para contar sua última história na Marvel. E quando ela chegou, a ideia não podia ser melhor, o Mundo de Batalha (ou Battleworld) era realmente incrível, reunia numa só realidade diversas momentos inesquecíveis da historiografia do Universo Marvel. Era de Apocalípse, Oldman Logan, Dinastia M, Guerra Civil, Desafio Infinito, Futuro Imperfeito, e por aí vai.

Não a toa, eu gostei muito das primeiras edições e estava começando a me apaixonar pela capa da HQ com um desenho belíssimo do Alex Ross. Essas primeiras edições estavam nos apresentando um mundo de infinitas possibilidades, os personagens mitológicos da Marvel usados como nunca antes. E aí apareceu o verdadeiro problema: era potencial em excesso.

Vai dizer que essa capa não é linda
Como assim? Se te dizem que um dos maiores (talvez o maior) escritor de HQs de super heróis da atualidade vai escrever uma história com ninguém menos que Dr. Destino, Thanos, Reed Richards 616, Reed Richards Ultimate, Ciclope Fênix, Pantera Negra, Beyonders, Maximus, etc você há de pensar: "São muitos ingrediente bons na mão de um ótimo cozinheiro. Não tem como essa sopa ficar ruim". Mas isso não é verdade.

Se olhamos a narrativa da história e ignoramos o fanservice (tipo o Galactus que cuida do palácio de Destino), percebemos que ela é muito simplória: Destino é um rei (por mais que seja um deus na história, o arquétipo que ele representa é de rei) e os heróis aparecem para destronar ele porque sim. É só isso, nem é como se eles tivessem um super plano, tudo só conflui para uma batalha final em que Reed Richards fala para o Homem Molecular "não dava para ser tudo como antes" e ele reponde que dava, então acabou.

Vou ser mais específico. Quando Destino tira a máscara e mostra seu rosto para Sue e quando o Dr. Estranho admite para seus colegas recém despertos que Destino é na verdade muito bom no papel de deus, deu-se a impressão de que a história seria mais sobre tons de cinza. Mas em seguida, Destino mata o Estranho e Ciclope para mostrar que ele indubitavelmente é o cara mal e os heróis decidem combatê-lo because reasons. Ou simplesmente porque o Dr. Destino é um vilão, sempre foi um vilão e sempre vai ser um vilão. Então, realmente não é necessário um motivo para combatê-lo. Os heróis nem param para pensar que sem Destino não haveria uma Terra para eles atracarem o bote salva vidas deles, eles simplesmente tem que derrotar Destino.

Os Beyonders nem aparecem de verdade na história, paciência. Reed Richards Ultimate nem precisava estar lá, desperdício total do personagem. Thanos só serve para desperta o Coisa e dizer para Destino que ele é um deus meio mais ou menos (afinal, qual foi a motivação do Thanos para lutar contra Destino? Não que ele não tivesse, só que história não nos diz, a gente tem que supor). Senhor das Estrelas não faz nada. Thor mulher e Capitão Marvel fingem que fazem alguma coisa. O Pantera Negra pega a Manopla do Infinito, isso é bem legal. Namor, que estava em pé de guerra com o Pantera, não faz nada. Cisne Negro beija os pés de Destino e é derrotada pelo Groot (também é uma cena legal).

Para tantos personagens bons, para uma preparação tão espetacular, para um setting tão bom, a narrativa deixa muito a desejar. O plot não é nem manjado, é preguiçoso. Se resume a o exército do mal de um lado, o exército do bem de outro, porrada, fim.

Talvez eu seja hater mesmo, mas eu insisto que não. Eu só quero ver um bom plot, algo que não seja mais do mesmo. Qualquer episódio de Rick and Morty tem um enredo melhor que Guerras Secretas.

Agora, não culpo o Hickman por isso, ele ainda é um ótimo contador de histórias. A questão é que mega sagas tem que vender, por isso a intervenção editorial é muito maior. Além disso, uma vez que a mega saga tem mais visibilidade, ela não pode inovar tanto, porque inovar é perigoso e por isso heróis e vilões têm que desempenhar seus papéis de forma bem quadrada. Numa mega saga não pode ter os heróis destruindo um planeta com bilhões de pessoas por não terem opção. 

Claro que nem sempre é assim, sagas como Guerra Civil, Crise Infinita, Crise de Identidade, entre outras estão aí para mostrar isso. Mas Guerras Secretas acabou sendo executada mais para ser uma grande campanha de marketing do que uma boa história. Não é a toa que vendeu horrores, tanto a saga principal quanto os tie-ins. Vixi... dos tie-ins eu reclamo depois.

Bom, mas a Marvel conseguiu o que queria, vendeu horrores e brilhou por um ano nas HQs bem mais que sua concorrente. Ou seja, não há motivo para eles realmente quererem fazer boas histórias daqui para a frente, o que interessa é só a grana, tanto é que hoje em dia a Marvel Comics é um tubo de ensaio dos quais os executivos querem ver se geram mais ideias para levar para os cinemas (lá que tah a grana mesmo). Bom, mas isso já é outro assunto.

Essa imagem parece a Marvel do passado olhando a Marvel do presente e pensando "que merda"

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