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O Limite: Revisitando 'Super Homem: Entre a Foice e o Martelo'

E se? A parte mais interessante dos quadrinhos é o fato deles estarem em constante mudança e aperfeiçoamento. Porém, alguns nomes na indústria são quase que sacros - e Superman é um deles. Com desenvolvimento iniciado em 1995 e publicação em 2003; Mark Miller decidiu, junto a DC, imaginar um Homem de Aço que caiu doze horas depois na terra: ao invés de Metrópolis, nos EUA, caiu no interior da Ucrânia, em 1938.

Parte 1: Ascensão.
A primeira parte da revista, intitulada de "Ascensão", é com certeza a melhor. Entramos em delicadíssimos assuntos aqui vivenciando um período dentro da Guerra Fria. Com a União Soviética perdendo cada vez mais a expressão; a adição do Super Homem ao exército vermelho é com certeza um motivo de festa e felicidade para os sovietes. A revista se supera na primeira parte, quebrando paradigmas, mostrando um foco maior na União Soviética com o Super e todos os mirabolantes e desumanos planos de Lex Luthor - grande (e orgulhoso) cientista - que atua junto com o governo dos
EUA para tentar apagar o poderio da URSS e de sua nova arma alienígena, independente dos meios necessários.

A discussão proposta no primeiro capítulo é diretamente relacionada a questão dos imigrantes. Em meio ao frio inverno soviete; o líder da polícia russa questiona o Homem de Aço: "Quem você acha que é voando com nosso símbolo, que nós acreditamos, sendo que você nem é deste planeta? Você é o oposto da doutrina Marxista, Super Homem. A prova viva de que os humanos não são criados iguais, e eu não quero acreditar nisso."

O que o policial não percebeu é simples: o Super Homem não é humano. É alienígena. Mas mesmo nessa história "e se?"; o Homem de Aço continua como sempre foi: fazendo o que acha ser certo. E, nesse caso, o certo é lutar contra a pobreza, promover a educação, acabar com a fome e dar uma vida digna a todos. O capítulo, claro, fala da ascensão do Super Homem: com a morte por envenenamento de Josef Stalin; quem o substitui não é Georgiy Malenkov; mas o próprio Homem de Aço como Primeiro Ministro da União Soviética.

Parte 2: Superior.
20 anos se passam desde a ascensão do Super Homem; e agora praticamente o mundo inteiro partilha do comunismo - com exceção dos Estados Unidos e do Chile. Isso não desestimulou Lex Luthor de tentar matar o Super em nenhum momento: experimentos em pessoas, bombardeios e ataques diretos são
comuns (e sempre falhos) contra o governo do Homem de Aço. A América passa por uma intensa crise, marcada pela fome e pobreza; aonde o país vive excluído porque quer - e nega a ajuda proposta pelos países comunistas à volta.

Se a grande discussão na primeira parte era sobre estrangeiros; aqui é sobre poder. Vence a guerra quem o tem. O Super Homem venceu todos os conflitos da época da Guerra Fria; e a expansão do comunismo proposto pela União Soviética do Homem de Aço não fora forjado à partir do sangue e da guerra. Mesmo sendo a maior arma da humanidade, o Super opta por seguir o que acredita e expandir o comunismo sem guerras ou batalhas. O mundo, claro, o aceita: ele é o poder.

O capítulo apresenta, também, novos aliados - como a Diana - e novos antagonistas além de Luthor. E aqui encontramos o único ponto fraco de toda a história: o Batman. O personagem tem o histórico trágico, é claro, mas o ódio dele ao Super é bem infundado; e ele vencer a Diana (sem ao menos mostrar para o leitor como!) é bem forçado também. O personagem parece que está ali só para a trindade (Batman, Super Homem e Mulher Maravilha) existir também neste universo paralelo.

Se o morcego não foi uma boa adição à história, a princesa de Themyscera fora. Diana tem ótimas cenas e momentos; sanando dúvidas e problemas que o Super encontra em sua trajetória. "Não existe nada de erreado em ajudar as pessoas, Super Homem. Você não pode ficar parado enquanto observa os outros morrerem" ela diz, enquanto ajuda na manutenção da URSS. 

Se o capítulo falha um pouco em antagonismo; ele constrói muito bem a vindoura maluquice do Super Homem. Com o ego nas alturas; seus esforços para melhorar o mundo foram realmente positivos à humanidade, mas ele começa a mostrar momentos de sua falta de controle.

Parte 3: Consolidação.
Vinte anos, novamente, se passam. Todo adulto tem um emprego, toda criança tem um hobby e todos conseguiam dormir pelo menos oito horas por dia, vivendo dignamente. Agora, só resta a América na oposição. País que esta presidido pelo Lex Luthor em pessoa. Aqui encontramos uma interessante crítica: Lex vence a crise Americana com medidas intervencionistas! Coincidência? (sic)

Bem, o governo soviete, como um todo, prosperou. Com seis bilhões de pessoas vivendo o sonho de Stalin e Super; não existe mais crime. A figura anárquica do Batman sumira; dando espaço para uma
sociedade funcional. Mas ao mesmo tempo em que o mundo parece prosperar; a cabeça do Super Homem está passando pelo contrário. Ele é seu próprio vilão.

Observando tudo e todos; o terceiro e último capítulo levanta uma questão que já fora trabalhada nos quadrinhos anteriormente: Quem vigia os vigilantes? Menções à "Watchmen" deixadas de lado, o poder do Homem de Aço subiu a cabeça dele - mas, mesmo assim, ele ainda é essencialmente bom e luta pela prosperidade de uma raça que nem é a dele.

Luthor não desistiu até o final, é claro, e acaba - depois de quarenta anos - conseguindo vencer o Super Homem utilizando de um exército armado com anéis dos Lanternas Verdes. É curioso ver, porém, como Luthor é o real vilão do quadrinho. No final, ele só quer derrubar o Super! Ele, vencendo o Primeiro Ministro Soviete; acaba por criar os Estados Unidos Globais, unificando o mundo todo, e prosseguindo com boa parte das medidas que outrora eram do governo do Homem de Aço.

Luthor implanta o "Luthorismo"; que nada mais é do que o feito por Super, só que com um nome mais americano. Luthor admite, em seu leito de morte, que esse era seu plano: a mera destruição do Super Homem, independente dos meios e dos porquês. Com um final impressionante e de cair o queixo, Miller consegue entregar o melhor roteiro que já fez em toda sua carreira e a melhor história que o Super Homem já teve; levantando questões e dúvidas e fazendo você pensar: "E se?"

***
Escrito por Alex Jacket.



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