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Dois Irmãos - Resenha



Um dos maiores lançamentos do ano; "Dois Irmãos" trás a força da narrativa intensa e poética, mascarada atrás da simplicidade do traço e da visão externa. Uma história que faz o leitor pairar entre os mais diversos sentimentos que se possa ter em uma leitura. Confira o que o Crise achou da nova novela gráfica de Fabio Moon e Gabriel Bá.


"Dois Irmãos" se distingue desde o momento que você adquire a obra. O longo encadernado não quer te conquistar, pois sabe que o conquistará de qualquer jeito. Desde o início, o amor é a primeira vista. Baseado no romance homônimo de Miltom Hatoum; a novela gráfica parece que fora feita cirurgicamente. Que tudo foi meticulosamente pensado para o leitor ficar exausto de tanto sentimento e intensidade que escorre ao decorrer da história - por favor, entenda isso como um fantástico elogio.

São muitas as surpresas e encantos que "Dois Irmãos" trás para o leitor. Os gêmeos paulistas Fabio Moon e Gabriel Bá - que arquitetaram a obra - falam, na história, da vida de um outro casal de gêmeos: Yaqub e Omar. Vemos a história dos garotos e de sua família que é praticamente única; vivendo na cidade de Manaus do início até praticamente metade do século 20.

Emoção misteriosa e real.

É interessante notar como "Dois Irmãos" é, acima de tudo, real. A história passa sentimentos de euforia, felicidade, raiva, tristeza e solidão da forma mais impecável que já consegui ver em quadros sequenciais de arte. Bá e Moon conquistam um espaço na narrativa dos quadrinhos que é praticamente impossível de descrever em uma análise sem imagens. 

Da mudança drástica que os filhos podem causar numa família até as expressões nos rostos e olhos das personagens: "Dois Irmãos" é praticamente vivo. Não existe momento em que o leitor fica moscando, de lado, sem interesse: os autores conseguem, de forma inexplicável, conquistar o coração e curiosidade de qualquer um que ao menos dê uma chance a história que se passa no norte do país.

A trama é incrível, a relação deles com sua cidade é, sobretudo, acreditável. E conseguir conquistar o leitor com tantos personagens em "apenas" 230 páginas é um trabalho de gênio. "Dois Irmãos" é uma  obra que deixa os autores como, eu arrisco dizer, um dos melhores e mais competentes da indústria hoje em dia.

Zana, Halim, Domingas e os nomes seguem: a história não é nem de perto somente dos dois irmãos - mas sim de como sua família e sua cidade evolui ao mesmo tempo com as fortes e vivas emoções que o livro trás. A sensação de vingança, o plano a longo prazo, o ódio, o amor, o sexo e o romance. A obra é praticamente uma narrativa dos sentimentos que qualquer um sente ao decorrer da vida.

Manaus traduzida em preto e branco.

A Manaus de Fábio e Gabriel é, sobretudo, colorida - mesmo que a obra seja inteira em preto e branco. Perdoe-me pelos exageros, mas não é erro comentar que tudo está traduzido em escalas de cinza. A jogada dos tons escuros e claros conseguem definir momentos decisivos na trama - momentos estes que encantam ou enraivam, tanto pelo o que está sendo contado quanto pelo que está sendo visto.

Não exagero, também, ao dizer que as expressões no livro são tão excepcionais quanto sua narrativa - e acrescenta à ela. Seja dos momentos de imensurável ódio que anuncia a face de Omar ou nas situações românticas e poéticas que de repente aparecem; o livro sabe muito bem se expressar. A última página que o diga: fiquei parado, por minutos, olhando para ela, fixamente, sem nenhum balão de fala e nada escrito além da assinatura dos irmãos finalizando a excelentíssima obra: fiquei praticamente sem ar. Eu entendi o que aquele gêmeo estava sentindo - sua face denunciava isso com perfeição.

Os traços são, em regra, belíssimos e simples. Claro, têm momentos de extrema cautela com os detalhes - principalmente mostrando as paisagens de Manaus - porém fica claro que o foco é mais nos rostos e olhos que expressam as emoções. Numa segunda leitura (que, não me aguentei, fiz logo após terminar de ler pela primeira vez), fica interessante ver como os autores se preocuparem com as emoções das personagens mesmo antes de apresentá-las ao leitor. 

Obrigatório na prateleira de qualquer fã de coisa boa.

A história é viva e fácil de se relacionar com nós mesmos. Terminei de ler pensando em momentos em que fui "um pouco" Yaqub ou "um cadinho" Omar. É legal ver como a revista trata a dualidade desses gêmeos - coisa que a capa tenta representar - e força uma narrativa completamente inesperada.

"Dois Irmãos" é uma novela gráfica que não pode faltar na prateleira de tanto quem é fã de quadrinho, quanto quem é fã de história e até mesmo para os fanáticos por literatura. É, sem mais delongas, uma história completa, com um raio de agrado amplo por sua excepcional qualidade, dando para Moon e Bá um novo Magnus Opus para poder, no futuro, tentar superar. Desejo sorte para eles, porém. Afinal, "Dois Irmãos" não é só a melhor obra já feita pelos gêmeos, mas como também o melhor quadrinho nacional já publicado.


"Alguns de nossos desejos só se cumprem nos outros. Os pesadelos pertencem a nós mesmos."
Nota: 10. "Dois Irmãos"; por Fábio Moon e Gabriel Bá.
Editora: Quadrinhos na Cia.
232 páginas, preto e branco, lombada quadrada.
Resenha feita por Alex Jacket, autor da coluna O Limite

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