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Invasão - Para além da Última Caçada de Kraven


Qualquer um que lê esses quadrinhos de super herói já ouviu pelo menos falar de Homem Aranha: A Última Caçada de Kraven por J. M. Dematteis, afinal se trata de um clássico. Porém a passagem desse grande roteirista pelas aventuras do Aranha, apesar de em um ponto ou outro dividirem opiniões, deixou pelo menos mais um grande arco: A Criança Dentro de Nós, que segue a boa tradição pós Watchmen de aprofundamento psicológico dos personagens.

Apenas fazendo uma breve recapitulação da Última Caçada de Kraven: o Homem Aranha havia sido enterrado vivo pelo caçador e este para provar sua superioridade em relação ao aracnídeo derrotou e capturou o vilão Ratus, a quem o herói nunca havia sido capaz de derrotar.

Já no arco A Criança Dentro de Nós, a trama se inicia com a fuga de Ratus do instituto psiquiátrico onde estava preso e em seguida mostra o Homem Aranha conversando com a psicóloga encarregada de Ratus, a doutora Kafka. O Aranha demonstra sua profunda frustração ao ver o rastro de mortos que Ratus deixou para trás em sua fuga, seus inimigos sempre encontram uma maneira de voltarem a fazer o mal às pessoas. Além disso, ele demonstra um completo desprezo pelo vilão, algo que os fãs de mais longa data saberão que não é de seu feitio. Há uma razão para isso, ele ainda não superou o trauma de ser enterrado vivo por Kraven, gerando nele um rancor generalizado.

Quando Ratus está sozinho, há uma criança que o acompanha, ela aparece em alguns quadrinhos e em outros não, deixando claro para o leitor que se trata na realidade de uma faceta da psicologia de Ratus. Uma faceta que aos poucos descobrimos que está ligada um trauma seu, aquilo que acima de tudo faz dele o monstro Ratus e o impede de retornar a sua forma humana: Edward.

A doutora Kafka compreende isso e está empenhada em trazer Ratus a sanidade. Fica óbvio que DeMatteis escolheu este nome bastante sugestivo a doutora para fazer referência a obra mais conhecida de Franz Kafka, A Metamorfose, que, mais do que uma história simplesmente bizarra, se trata de uma metáfora para um estado psicológico do personagem principal.

Ainda no primeiro volume, a narrativa também mostra Harry Osborn que, ao compartilhar um momento a sós com seu filho, é assombrado pelo fantasma do pai, Norman Osborn, o Duende Verde original.

Assim, o quadro se fecha, o Homem Aranha deve enfrentar seus demônios internos encarnados em seus vilões Ratus e Duende Verde, enquanto estes também devem enfrentar os seus. Porém o verdadeiro demônio de Harry é o pai, que nunca nunca demonstrou afeto pelo filho, e Norman estava morto, muito além de qualquer reconciliação. Isso leva Harry a escolher o Homem Aranha como alvo de suas frustrações, afinal ele deveria ser seu melhor amigo, Peter Parker, não o assassino de seu pai. Pelo menos é nisso que Harry acredita.

E o trauma de Ratus? Qual é? Aos poucos ele é revelado, algo que sempre me arrepia e me faz sentir muita pena de Ratus (ou deveria dizer Edward?).


Esta é uma história que, como nenhuma outra, humaniza os vilões. Será que poderíamos chamá-los mesmo de vilões? Afinal, suas ações não são mais que reações ao mal que sofreram e seus alter egos, Ratus e Duende Verde, nada mais são que personas criadas quando Harry e Edward não conseguiam mais conviver consigo mesmos e com o mundo. Nós mesmo não somos um pouco assim?

Publicada pela Abril em Homem Aranha Anual 05, A Criança Dentro de Nós sempre foi uma das minhas histórias favoritas do Homem Aranha e também a mais emocionante. DeMatteis narra como ninguém a dor desses personagens e a arte de Sal Buscema, apesar de às vezes parecer meio preguiçosa, transmite os sentimentos deles de forma simples e intensa.


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