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Invasão: Will Eisner - O Complô


Alguns autores e obras são revisitados constantemente. De tempos em tempos alguém aparece para nos lembrar de suas existências e, como se ainda fossem a grande novidade do momento, a discussão que surge
a partir daí é sempre bem acalorada: opiniões e interpretações novas surgem e obra e autor se renovam. É assim que eles se tornam imortais, uma característica que podemos citar sobre os clássicos.

Um escritor já considerado clássico do século XX é Will Eisner e O Complô foi sua última obra.

Quando falamos sobre histórias em quadrinhos geralmente não há muita discórdia sobre quais foram os maiores escritores da mídia. Eu mesmo sempre coloco Alan Moore e Frank Miller no degrau mais alto desse pedestal e nunca ninguém discordou abertamente de meu posicionamento. Porém, não colocar Will Eisner nesse apertado primeiro lugar do pódio me parece um erro.

Ele pode não ter sido tão importante quanto os dois primeiros para definir as HQs ‘nerds’ atuais e o mundo dos super heróis (apesar de sem dúvida ter contribuído com seu título Spirit), mas ele com certeza fez muito pela mídia em si, que ele preferia chamar de Arte Sequencial, em oposição ao Comics em inglês. Para ele esta forma de arte não tinha nada de cômica e assim ele contribuiu muito para que ela fosse levada mais a sério e para que fosse reconhecida como uma expressão artística legítima.

Algumas de suas graphic novéis, como Avenida Dropsie (minha favorita), estão muito próximas do gênero literário propriamente dito e a inserção da narrativa gráfica realmente acrescenta à experiência de leitura. Essa narrativa única dá sobriedade a um mundo geralmente caracterizado por cores berrantes de uniformes de carnaval ao mesmo tempo em que dá vida a situações que nos parecem cotidianas.

Se minhas palavras não são o suficiente, deixo a opinião de Alan Moore sobre Eisner: “Acho difícil discordar que Eisner é o maior responsável por dar às historias em quadrinhos um cérebro”.


O Complô é a última graphic novel escrita e desenhada por Will Eisner e fica claro que com ela o autor busca deixar um legado. A trama não é a convencional das HQs, em que temos um personagem principal que acompanhamos a medida que este enfrenta algum desafio ou provação. Nela o personagem principal é o próprio complô e o enredo é sobre como ele é construído à partir do meio do século XIX ao XX.

O referido complô se trata de uma construção de falsos documentos que incriminariam os judeus de tramarem um “plano de dominação mundial” no contexto do regime do último Ksar da Rússia. Seria algo risível se não fosse real, se tais documentos, chamados de Protocolos de Sião, não tivessem sido utilizados como justificativa a perseguição dos judeus durante o século XX e se, mesmo após provarem sua falsidade, tantas pessoas não continuassem a levá-los a sério como uma maneira de justificar seu racismo.

Assim, as primeiras páginas nos mostram Maurice Joly, um satirista crítico francês, escrevendo sua maior obra, “O Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu”, utilizado como crítica ao governo de Napoleão III, para em seguida passar àqueles que se basearam pobremente desta obra para forjar tal plano maligno dos judeus e seus motivos.

Com isso, a graphic novel se assemelha a um texto historiográfico, com as notas e referências bibliográficas nas quais Eisner se baseou.


Para finalizar, serei honesto, esta não é a melhor graphic novel que já li e com certeza não é a melhor obra de Will Eisner. Mas isso de maneira alguma diminui seu valor. Através dela Eisner mostra a todos nós, apaixonados pela mídia, que as narrativas gráficas (HQs ou arte seqüencial) têm um potencial além das meras narrativas encontradas cotidianamente nas bancas e ainda podem ser usadas de maneiras novas e, mais do que tudo, que ela é um veículo de comunicação sério e valoroso.


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