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Invasão: Em apologia a Miller


Este talvez seja o post mais arriscado que eu poderia escrever, mas depois de ler e reler muitos dos trabalhos consagrados de Frank Miller criei coragem para ler um de seus piores trabalhos: The Dark Knight Strikes Again (O Cavaleiros das Trevas 2). E para meu espanto, eu realmente gostei da obra. Será que eu deveria ir para um hospício? Ser privado do convívio social? Leia o post e tire suas próprias conclusões.

Lembro bem a primeira vez que tive algum contato com esta obra, eu era moleque e vi numa livraria uma edição especial reunindo The Dark Knight Returns e The Dark Knight Strikes Again. Minha reação a princípio foi eufórica, uma das melhores histórias que já havia lido possuía uma continuação. Como eu nunca tinha ouvido falar dela? Mas bastou abri o livro e aqueles desenhos horríveis me saltaram aos olhos, coloquei o livro de volta na prateleira e corri ao banheiro para vomitar. Anos depois, ainda incrédulo, sempre que via o título em uma livraria, eu o abria na esperança de que minha experiência anterior tivesse sido apenas uma primeira impressão ruim. E eu confirmava, não, a arte era nojenta mesmo e a história parecia a maior bagunça com que já havia me deparado. Mesmo sem lê-la eu estava convencido, O Cavaleiro das Trevas 2 era uma pilha de lixo.

Essa última impressão me seguiu até que ano passado encontrei na internet alguém que dizia que nem tudo na obra era ruim e explicando o surto que Miller teve com o 11 de setembro. Já sendo então um fã de Miller, comecei a ficar curioso novamente pela obra, não tanto pela história que ela continha, mas sim para vislumbrar a que caminhos a mente deste grande autor haviam seguido. Fazendo uma breve pesquisa, em que me deparei com diversas opiniões que confirmavam que a arte era horrível, que o Batman quase não aparecia e que a história era muito mais da Liga da Justiça do que da morcega, tomei fôlego e mergulhei naquelas páginas.

Eu achei que seria um mergulho na lama, mas já com uma boa noção do que me esperava, acabei tendo uma grande experiência com a obra.

Finalmente chegamos no assunto que interessa:


A arte, na maior parte do tempo, é preguiçosa, desproporcional e feia, não há o que discutir sobre isso. Talvez apenas um painel ou outro se salve. Mas tem algo que eu considero mais importante do que arte, o roteiro.

Miller novamente nos joga em um futuro distópico. Não, não “UM”, mas “O” futuro distópico, aquele que poderia ser considerado talvez o maior pesadelo concebível no universo DC. Um futuro em que os heróis - aqueles que deveriam ser um ideal, uma inspiração e um exemplo para o homem comum - foram distorcidos, rebaixados, destruídos. Batman está supostamente morto; Elektron está preso, confinado em sua forma microscópica; Flash é reduzido a uma bateria, legado a correr pelo resto da vida em uma roda de hamster gerando energia; heroínas como Fogo e Canário Negro nada mais são do que símbolos sexuais; e claro, o mais triste deles, aquele que era o maior de todos - não apenas o mais poderoso, mas também o mais íntegro - o Superman, reduzido a um servo de um governo ilegítimo, ele não é mais o ideal de nada, é um homem sem vontade própria.

Mas para dar o sabor dramático deste futuro, Miller não se limita a apresentar a nova realidade dos personagens, ele quer mostrar o cidadão comum, mostrar o quanto este se degradou também. Assim, para criticar a futilidade e a busca incansável pelo prazer dessa nova sociedade (nova?), o enredo central é intercalado com propagandas de televisão apelativas e jornais bizarros que exibem personagens de mangás hiper sensualizados. É como se a sociedade estivesse tão imersa em seus vícios que é preciso utilizar truques baratos para chamar a atenção das pessoas aos assuntos que importam e que são maiores que a mediocridade dos prazeres cotidianos.

Na cena em que Brainiac destrói Metropolis, podemos ver a reação das pessoas que se auto impõem uma impotência frente ao ataque e lega a responsabilidade de defender seus lares ao Superman. Mas este está cansado, ele não é humano e precisa se resignar ao vilão que mantém a última cidade Kriptoniana e todos os seus habitantes sob seu poder.

É neste contexto que Batman ascende como o maior símbolo do universo DC, ele não é um ideal inalcançável como o Superman, ele é um homem comum que se levanta para conduzir as pessoas para fora desta realidade medíocre. Ele é o líder de uma revolução e ele sabe que não basta mudar quem está no governo, é preciso mudar o homem comum.

Além de tudo isso a história ainda é recheada de ideias interessantes, muitas envolvendo o Superman, como seu relacionamento com a Mulher Maravilha e a filha que tiveram juntos, ou o fato de no fim o Super não conseguir mais negar para si próprio que ele não pertence a esse planeta. O cunho político da obra se destaca também, porque logo no início da obra é revelado ao público que o presidente americano é uma farsa, mas nas eleições que se seguem, o povo vota no mesmo cara (parece muito com o nosso junho de 2013, em que criticamos os governantes, mas votamos nos mesmos caras em 2014). E temos também algumas cenas de discussão entre Questão e Arqueiro Verde que mostram muito do que Miller se questiona sobre política, não é um assunto fácil de se criar uma opinião afinal (fica a dica, se você tem uma opinião política fácil/simples/inquestionável, melhor revê-la).

Por fim, sim, Brainiac como um sapo cibernético, Luthor como um ogro deformado e tantas outras representações horríveis não fizeram minha cabeça, mas com um pouco de esforço é possível ignorar a arte ruim de O Cavaleiro das Trevas 2. Se você superar isso, e ler a obra sem tentar compará-la a seu predecessor, acredito que você possa apreciar esta leitura.


No meu próximo post vou defender Holly Avenger.

Brincadeira, até eu tenho limites hehe

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