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Building Stories


Eu soube por um amigo que a nova Graphic Novel do Chris Ware tinha ganho um Will Eisner. Eu tinha gostado bastante do Jimmy Corrigan – O garoto mais inteligente do mundo, e embora tivesse achado um pouco complicado no começo, aos poucos fui me acostumando com as letras pequenas e a quantidade de detalhes, quadrinhos com lógica de organogramas e o transtorno obsessivo compulsivo somado a camadas e camadas de temas depressivos. Provavelmente uma das Hqs mais complexas que coloquei as mãos... Até agora. Building Stories é um trabalho que entra na minha lista de obras que o autor, com o perdão da palavra, botou pra foder.

Acho que preciso explicar antes o que eu quero dizer com botar pra foder. Os artistas de diversas áreas chegam em um momento de suas vidas em que fazem um trabalho autoral tão forte, com tanto de si, tão compulsivo, numa espécie de tentativa de ápice pessoal (claro, em teoria, todo artista está constantemente fazendo uma versão nova do seu primeiro trabalho, com o objetivo de resolver seus problemas Freudianos mais profundos, ou não). Alguns exemplos: David Lynch, quando fez o Império dos Sonhos... Bem, ele botou pra foder legal. O roteirista e diretor, Charlie Kaufman, quando fez Sinédoque, Nova York, também botou pra foder. Fábio Moon e Gabriel Bá, quando fizeram Day Tripper, ao meu ver, fizeram o mesmo. Frank Miller em Cavaleiro das Trevas, adivinha só? Isso mesmo. Botou pra foder com tudo. Podemos encontrar inúmeros artistas que tiveram um ápice artistico tão incrivelmente forte, as vezes pessoal, as vezes experimental, outras, com qualidade narrativa tão refinada que tem a capacidade de te arrancar lágrimas dos olhos sem nem ao menos sentir quando aconteceu.
Essa parte foi boa. American Splendor pós pós moderno
Quando vi que Building Stories não era só uma Graphic Novel, e sim uma caixa enorme, contendo 14 histórias diferentes com fascículos em tamanhos e formatos distintos (que me deixou feliz em ter gasto 99 reais pela quantidade de material), eu vi o tamanho da encrenca em que havia me metido. Se Jimmy Corrigan tinha me balançado, Building Stories ia implodir tudo.
Como o nome diz, Building Stories, um jogo de palavras, sendo que o título pode dizer “Histórias de Prédios”, ou “Construindo Histórias” define muito bem o que a caixa trás ao espectador. A medida que o espectador vai lendo os livros, um pouco da história de cada família e vizinhança vão aparecendo. Em tempos diferentes, lugares próximos, temos tanto um pouco do cotidiano pessoal, como seu ambiente. Você quem vai construindo aos poucos a história, e o modo como as tramas vão se revelando, já que não há ordem correta para se ler. Eu comecei com um fascículo grande, que por azar ou sorte, foi provavelmente um dos mais intensos e bonitos, que me balançou por alguns dias. A partir daí, todas as histórias em volta foram se ligando a ela e explicando coisas que aconteceram no passado e que surgiriam no futuro daquele momento. Então eu pegava um livro, lia e dizia a mim mesmo: “Puxa, então foi aí que fulano ficou desse jeito!” numa alegria pessoal de montar um quebra-cabeça e descobrir mais sobre a vida dessas personagens que tantas vezes tinha que parar para respirar, quando olhava suas falas, ora sábias, ora estúpidas e hipócritas, e pensava o quanto Chris Ware conseguiu criar a angústia do tempo dos humanos, do cotidiano, da rotina contemporânea, e como ela se relaciona com a memória de cada indivíduo, que pode manter um certo momento de sua vida como um trauma eterno, mas pode esquecer outras coisas coisas e se arrepender disso, ou as vezes mudar de opinião sobre algo que tinha tanta certeza. É realmente um material muito emotivo, que me atingiu intensamente nesses quinze dias que se passaram. Eu poderia ter lido em menos tempo, mas cada quadro tem uma quantidade grande de detalhes (que contrapõe o estilo simples dos traços de Chris Ware) que vale a pena degustar por mais tempo e calma. Li algumas reviews de pessoas que leram em dois dias, outras em até mais que eu. A experiência varia bastante para cada pessoa.
Poderia falar mais de Building Stories, mas não gostaria de trazer spoilers e possivelmente construir uma narrativa antes que vocês, possíveis espectadores, possam lê-la. Apenas deixo um comentário final. Chris Ware mostra para nós leitores, e também humanos, vivos, que estamos em constante mudança, sempre trabalhando com coisas novas e perdendo outras, buscando guardar nossos momentos importantes na cabeça tão raros e ao mesmo tempo tão comuns, e que de certa forma, nem mesmo dentro da nossa própria consciência, conseguimos construir um raciocínio linear, quando se trata da vida.
Só um pequeno detalhe. Building Stories está em inglês, sem uma data exata para uma possível tradução para o português. Quem souber a língua do dinheiro, um dicionário a mão pode ser um bom companheiro.


Essa aqui... Me perdoem, perdi a capacidade de raciocinar porque estou impressionado demais.

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